A alegria que resiste na Cracolândia

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Publicado Quinta, 30 de Novembro de 2023 às 10:21, por: CdB

Para comer, é preciso se arrepender dessa existência em pecado. Se arrepender de não se conformar com as filas nas cadeias, nos metrôs, nos mutirões de emprego e todas as esperas que já somam mais de 400 anos. É preciso se arrepender de ter nascido.


Por Verena Carneiro - de São Paulo


Ninguém é mais presente na Cracolândia do que a igreja. Presença e amor são coisas diferentes. Há os pastores que arrebentam, puxando do pescoço, as guias que celebram compromisso com outras religiosidades. Quase todas as denominações levam comida. 




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No fluxo se encontra de tudo, até amor

O alimento é bem vindo, assim como pode ser o amparo espiritual. Mas, algumas exigem, antes de entregar as marmitas, a participação em um culto em fila indiana. Autofalantes gritam convocações ao arrependimento.


Para comer, é preciso se arrepender dessa existência em pecado. Se arrepender de não se conformar com as filas nas cadeias, nos metrôs, nos mutirões de emprego e todas as esperas que já somam mais de 400 anos. É preciso se arrepender de ter nascido.


Toda a caixa de som, com ou sem luzes coloridas, que pulsa no ritmo dos funks da moda, é uma negação disso. Um tambor em galão de água é uma afirmação de existência. Cada batida ressoa os tímpanos protegidos por vidro blindado. 



Caminhos sem chegada


Toca também, em algum lugar, nos corações daqueles que prefiram aceitar os caminhos sem chegada e sonhar imagens publicitárias. Ninguém se incomoda tanto quanto os racistas, que acreditam com todas as forças que um cachimbo é o estado final da falta de razão.


Um isqueiro acende.


Canta a boca desdentada o bafo de cachaça versos de Dona Ivone Lara. Fala de liberdade enquanto janelas são fechadas. Mexe pernas carcomidas, vai mandando a rima, viaturas passam recolhendo sua graça. De peruca, meia arrastão, sutiã rendado. Travestis desavergonhadas em meio à praça. Dança, bola, cinema, tinta, sol e água. Comida, bebida, dopamina.


Sim.


Existe prazer na Cracolândia.


Esse é o manifesto da rua às pessoas que pagam impostos, às que acreditam terem suas contas certas com deus-diabo-amigos-Estado…


“Não matarão”


“Não roubarão”


Alguém pode matar? Quem pode roubar? Vocês estão nos vendo através de um espelho de práticas? Nossa aparência ofende a sua estética?



Sociedade em caos


Vulnerabilidade absoluta, necessidade de ordem, Estado falido, sociedade em caos, desordem generalizada, violência sistêmica… e desqualificam a exclusão e a desigualdade, moralizam o cotidiano alheio. Vão etiquetando e sobrepondo estigmas.


Vocês estão falando de quem e para quem? Os corpos como territórios, abertos e em estado de troca. Profanáticos, vadios e desconcertantes. O cheiro, a velocidade e as camadas! O ritmo de vidas esparramadas, dessas que dão paúra às certezas invioláveis.


No fluxo, pelo fluxo, com o fluxo, para o fluxo: onde encontramos de tudo, até amor.


Liberdade. Libertinos agem libertos, soltos, livres. Mas são libertinos. Pecadores. A contenção do prazer é tão grande quanto o controle das emoções na história humana para obter e concentrar o poder. 


Formas de controlar, ao invés de viver. Eras de opressão, repressão, objetificação, mercadorizaçao do corpo, da alma, da mente. A razão se torna uma déspota esclarecida predominante nas emoções e relações dessa tal humanidade.


Doce infinitude da agonia e sofrimento, fazendo com que o sistema vigente, indigente, reticente, que nem sente,  sem gente, sem planta, sem animal e tudo aquilo que nos encanta, continue em perfeito equilíbrio na sua veneração de um Status Quo, ou de de um Estado Escroto.


A Craco Resiste


 

Aline Yuri Hasegawa, é mãe, pesquisadora e produtora. Integra o time misto de futebol de várzea União Lapa que, juntamente com o Coletivo Rosanegra ADF e A Craco Resiste, promove ação de redução de danos com futebol no Fluxo. Militante d’A Craco Resiste.


Daniel Mello, é militante d’A Craco Resiste e faz parte da Associação Birico. É autor do livro Gargalhando Vitória - poemas da cracolândia (Editora Elefante)


Ricardo Paes Carvalho, educador social de rua e jornalista. Militante d’A Craco Resiste.


Verena Carneiro, é jornalista, pós-graduada em jornalismo literário. Redutora de danos pela Craco Resiste e integrante dos times mistos de várzea de São Paulo União Lapa e Rosanegra ADF -, ambos com atuação política e social por meio do futebol.


As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil




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